11.3.08

Os cheiros do espaço


Carla Salgueiro

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto o meu perfume, o que pomos por cima das certezas e das dúvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.
Em breve me confundirei com o cheiro dos outros, daquele homem vergado pelo saco de batatas, da florista a compor as margaridas, da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas sangrentas (talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com a mistura dos aromas que me compôem e ouvirei na tua pele a subtil diferença entre os dias.
Amanhã fecharemos a porta e o teu cheiro irá entranhado em mim até uma distância infinita das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada estendendo a pele às dádivas do dia.


Rosa Alice Branco

2 comentários:

Dalaila disse...

Gosto tanto da Rosa Alice Branco, escreve poesia como quem vive todos os dias as coisas simples

Andreia Ferreira disse...

O cheiro... talvez o sentido mais importante... aquele que deoxa marcas por mais tempo.