17.3.08

Nenhum poema podia ser espaço-chão da sua casa.



Guste

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
São como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto-
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer- é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

Maria do Rosário Pedreira

9 comentários:

Capa Rota disse...

Título e imagens arrebatadoras! Palavras para quê?
Estarrecida como sempre, todos os dias, que aqui venho!

musalia disse...

Rosário Pedreira sabe, ela sabe porque o escreveu neste poema.
sabe que o 'amor' só cabe na indefinição, no sonho. imagina-se o amor, quando se concretiza dói. porque é efémero.

(e o sonho é a infinitude que a alma abarca)

gostei muito do poema. e do teu gesto :)

Por entre o luar disse...

Simplesmente adorei:)

Beijinho e sorriso*

lupussignatus disse...

Indomável...

Imagens e palavras libertadoras...

Obrigado pela partilha.

Dalaila disse...

o meu não cabe em palavras escritas....

Chloé disse...

Não conhecia...adorei...

menina tóxica disse...

sempre tão lind a MRP :)

dora disse...

( não cabemos ; )

Anónimo disse...

depois deste escrito ... vou ler Petrarca para me curar ... nenhum poema pode ser a janela da sua casa, a porta, o telhado, o fantasma no dédalo das canalizações, um dédalo dos fios -electricos.
muito bonito . muito bonito o amor que não cabe num poema cabe na gaveta, no talher que se leva à boca

Que tal irem ler poesia como deve ser!
e não estas frses de crónica feminina dos anos 70!!!